Um livro de papel dura menos que Umberto Eco.

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Ana Munaripor Ana Munari -

Umberto Eco completou 80 anos em janeiro – Lygia Bojunga imita-o este ano também. O Eco eu nunca vi ao vivo, mas no youtube ele está funcionando a mil – e, se o papel dos livros dura, no máximo, 70 anos, Eco é ainda melhor que seus objetos de adoração. A Lygia eu encontrei em 2009, contando histórias lá em Santa Teresa, no Rio, mais maravilhosa que a cidade que a acolheu. Dizem que não há receita confiável, mas eu queria saber como se chega assim aos 80, pensando, inventando, criando. Eu, ainda na metade do caminho, já nem lembro o que eu li ontem. Por isso tenho de riscar o livro todo, e sublinhar, e anotar tudo que vem à mente nas margens, na hora exata em que a reflexão se concretiza, se não…
Conheço gente que se alarma quando me vê com a caneta diante das páginas de um livro. Ao menos escreve a lápis, dizem. Mas com o atrito das páginas os escritos a lápis se apagam, não dá. Eu confesso, já rabisquei a lápis muitas vezes, com cuidado, bonitinho, cheia de dedos, pedindo licença. Agora não, quando o livro é meu (quer dizer, quando não é da biblioteca: não me emprestem livros!), eu leio como eu quero, participo como eu quero. Acabo de ler dois livros do Eco, que eu já tinha começado a ler sem terminar, porque vieram outros e mais outros, necessários para o trabalho, e aí as leituras de prazer ficam para depois. Pois os livros do Eco estão cobertos de anotações. São eles: Não contem com o fim do livro, uma conversa entre Eco e o cineasta Jean Claude Carrière, e Memória vegetal, uma série de artigos compilados ao longo de mais de 20 anos. Em ambos, o tema gira em torno do livro, sua história, seus textos.
Umberto Eco tem o dom das frases intensas: Essas eu sublinho, concorde ou não, às vezes faço um balão ao redor, destacando-a do restante: “Tudo pode acontecer. Amanhã, os livros podem vir a interessar apenas a um punhado de irredutíveis que irão saciar sua curiosidade nostálgica em museus e bibliotecas”. Frase de Eco, o mesmo que diz, sobre o livro: “Talvez ele evolua em seus componentes, talvez as páginas não sejam mais de papel. Mas ele permanecerá o que é.” Enfim: de pedra ou virtual: o livro é livro e permanece sendo o que é. E é o quê? Certamente, e mais ainda para Eco, não é apenas um suporte. Por isso, estranho, e não concordo. O livro não é o que é, porque ele está em constante mutação, como suporte nem tanto nos últimos quinhentos anos, mas como obra, muito.
Quando eu concordo, assim, com todo meu ser, eu escrevo “siiiiim”, como ao lado desta frase: “Em contrapartida, ainda poderemos ler livros, durante o dia, ou à noite à luz de uma vela, quando toda herança audiovisual tiver desaparecido”. Ao lado dessa, eu ainda anotei: “isso se a tal geração não tiver de aprender a ler livros”, fazendo uma referência à geração esta, que hiperlê na tela, cada vez mais distante dos calhamaços de papel.


Quando a ideia é boa, eu coloco pontos de exclamação, às vezes mais de um, vários: “Sempre daremos um jeito de ensinar uma criança a ler.” Ler: textos verbais, imagens, sons, expressões faciais, gestos, fatos, o céu, o mar…
Quando eu não entendo, claro, interrogação. Mas uma só, porque a repetição de pontos de interrogação serve para aquela expressão “como assim?” ou “está me zoando”, do tipo: “Nascemos, você eu eu, no século que, pela primeira vez na História, inventou novas linguagens.” Como assim? Essa foi minha primeira impressão, que colocou um ponto de interrogação, mas, quando enxerguei a palavra História, e ainda com H maiúsculo, entendi. Depois da escrita – e só a partir dela existe a História – só o cinema e a hipermídia. E a fotografia? Hum… Deixemos o ponto de interrogação aí.
Há lugares com um imenso X. Não quer dizer que esteja errado, ops, não. Mas sim que ali há algo com o qual eu não concordo, caso este: “Seria possível imaginar hoje em dia um escritor que ditasse seu romance sem a mediação do escrito e que não conhecesse nada de toda a literatura que o precedeu? Talvez sua obra tivesse o encanto da ingenuidade, da descoberta, do insólito. De toda forma, parece-me que careceria do que denominamos, na falta de termo melhor, de cultura.” Aí, ele coloca a soberania da cultura escrita em relação à oral, significando que, sem a tradição da escrita, sem a literatura escrita do passado, um escritor não dispõe da cultura necessária para produzir. Puxa, e os contadores de histórias? Os repentistas? Muitos deles são analfabetos, nunca leram um livro.
Sim, há pontos de desencontro entre meu pensamento e o do extraordinário Eco, que eu admiro quase à veneração. Peçam-me para fazer uma lista de pensadores com os quais eu gostaria de conversar, e certamente Umberto Eco estaria entre eles. Eu sou suspeita, evidentemente. Na minha lista ainda estaria Alberto Manguel, Márcia Abreu, Jenkins… todos do campo da produção cultural e da leitura. Sem citar os escritores e, ainda, aqueles que, para encontrá-los, seria necessário uma máquina do tempo.
Vejam esta agora: abro este livro, está cheio de anotações. De quem é essa letra? Parece minha. Quando eu escrevi isso? Não sei. O que eu quis dizer com isso? Não sei. Eu até pensava que não tinha lido o livro. Ótima desculpa para ler novamente.

Foto: wikipedia


Ana Munari
Doutora em Letras PUCRS
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