Lygia Bojunga: a literatura infantil sem eufemismos

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Ana Klauckpor Ana Klauck -

Alguns tipos de literatura nos deliciam com histórias interessantes, nos fazem rir com perspectivas inusitadas da realidade, nos incitam a pensar naquilo que ainda não tínhamos considerado. Há vários tipos de literatura e de arte em geral; a arte pode se configurar tensa ou alegre, pode nos tocar pelo riso ou pela crítica, e nos move simplesmente por mostrar aquilo que vemos todos os dias, mas que nunca enxergamos de verdade. A boa literatura faz pensar e também faz sentir e nos encanta quando amacia os recônditos da nossa alma, aqueles lugares que a realidade deixa calejado. Passamos por uma mesma paisagem diariamente, mas se ela nos é apresentada por um poeta, os nossos olhos, ouvidos, pele, alma se sensibilizam e, por um instante, vemos tudo pela primeira vez. A arte comove, pois nos abre os olhos para dentro.
A literatura para crianças e jovens também pode tocar de diversas formas e não é sem frequência que o humor, por exemplo, é uma dessas ferramentas valiosas. A aventura, a fantasia, a brincadeira também são bastante exploradas, aguçando o faro do jovem leitor em sua descoberta da vida. A literatura para o jovem, frequentemente, está lidando com um leitor cheio de primeiras vezes, na sua inédita excursão pela vida. A literatura infantil e juvenil lida com a sensibilidade do ser humano em formação, na sua descoberta do mundo, na sua invenção de si mesmo. Aos mais jovens, o mundo é restringido, e sua participação na vida ainda é perpassada por autorizações dos adultos. A intervenção dos leitores mirins no mundo ainda é limitada, e sua vida ainda é carregada pelos mais velhos, de quem dependem e quem, muitas vezes, não entendem. Por mais limitada que sejam as ações dos mais jovens, seu interior está em constantes borbulhas, pipocando de ideias, sentimentos, descobertas interiores. A literatura para esse público é o veículo para externalização desses sentimentos, é onde o jovem e a criança se veem e se identificam, seja por meio da aventura, do mistério, da brincadeira.


Uma das autoras brasileiras que mais tem se diferenciado com sua produção riquíssima para o público infantil e juvenil é Lygia Bojunga. A autora já escreveu mais de vinte obras em trinta anos de literatura e já ganhou praticamente todos os prêmios relacionados ao gênero no Brasil e diversos no exterior. Mas o que faz de Lygia Bojunga uma autora singular? A leitura de qualquer um de seus volumes facilmente responderia essa pergunta. A característica que mais se destaca em sua obra é a sensibilidade. Lygia é capaz de escrever sobre sentimentos e de conhecer a alma humana como poucos escritores conseguiram. Sua arte é calcada na profunda construção do ser humano, na crença no amadurecimento, na complexidade que subjaz o pensamento de crianças e adolescentes. Lygia não eufemiza: ela constrói jovens complicados e pensantes, que almejam o mesmo que seus iguais adultos: viver e entender a própria vida. Os personagens mirins de Lygia são seres cheios de interrogações, que querem compreender e participar de sua realidade. Os livros adentram a alma do leitor e reviram temas-tabus, tais como homossexualidade, suicídio, divórcio, pobreza, adultério, morte. Lygia não subestima a criança, não desdenha seus problemas, não minimiza sua participação no mundo.
A literatura de Lygia Bojunga nos apresenta o mundo infantil e juvenil de perto. Lygia não faz concessões, não ameniza, não passa a mão na cabeça do leitor e nem dos personagens. A autora expõe crianças e jovens em problemáticas existenciais sérias, mostrando a forma como eles lidam com situações complicadas da vida. Os textos constroem o mundo de uma maneira realista: famílias problemáticas, crianças indesejadas, diferenças sociais, amores não correspondidos, injustiças. Ao mesmo tempo em que tratam de temas sérios, os livros de Bojunga encantam por mostrarem o amadurecimento, o desenvolvimento, a consolidação da identidade, a esperança no crescimento interior. Os conflitos não são resolvidos, eles permanecem. Os personagens por sua vez, se desenvolvem e vencem as limitações adultas, em um esforço em participar da própria vida, de entender a si mesmos e o mundo que os cerca.


A literatura de Bojunga é bela e forte e chama a atenção por considerar a criança como um ser complexo e capaz de lidar com problemas difíceis até mesmo para os adultos. É o caso de 6 vezes Lucas, romance da autora que fez parte das minhas leituras recentes e que narra alguns episódios da vida do pré-adolescente Lucas e a forma como ele lida com a descoberta de que sua família está se desestruturando. Bojunga representa o pensamento infantil de maneira inteligente e demonstra que conhece bem as minúcias do mundo mirim, misturando, em vários momentos, sonho e realidade para descrever os sentimentos do garoto. Lucas assiste a tensa vida a seu redor, da qual os pais pouco o permitem participar, e sofre com aquilo que não consegue entender e, mais do que isso, com aquilo para o qual ele sabe não haver solução.
A desilusão do personagem em relação ao relacionamento dos pais é um dos grandes temas tratados nesse livro. Lucas vê a corrosão do casamento do casal, mas sabe que suas ações são limitadas na tentativa de ajudar. Seu conflito, assim, se dá no plano emocional, na descoberta de seus sentimentos e na busca pelo entendimento. Lucas é um menino sozinho, que se refugia nas brincadeiras e na imaginação para tentar se aproximar da realidade a seu redor. Ele se sente excluído da família, que gira em torno dos pais, e percebe que é constantemente deixado de lado por ambos. Seu sofrimento é o reflexo de uma interioridade complexa, de um menino que luta para ser escutado, para participar do universo familiar, mas cuja voz é censurada com frequência.
As agitações do menino são ricamente descritas pela autora, que configura o mundo infantil de maneira detalhada e interessante. Lucas, por mais que seja deixado de lado da maioria das situações que envolvem os adultos, é ativo em sua imaginação, onde tenta resolver suas problemáticas e a partir da qual alivia suas ansiedades. É por meio dessa complexidade em que se delineia, que ele é capaz de aquietar sua alma e, ao contrário dos adultos que o cercam, compreender muito dos conflitos que vive. Lygia constrói, assim, um personagem pré-adolescente sensível, cuja trajetória reflete conflitos não somente de sua faixa etária, mas também aqueles que afligem qualquer ser humano. A universalidade da narrativa de Lygia, principalmente na construção da interioridade dos personagens mirins, torna sua obra singular.
Lygia é uma grande autora de livros infantis e juvenis e, mais do que isso, é uma grande conhecedora da alma humana. Ler Lygia Bojunga é mergulhar no si mesmo, adentrar aquilo que nos é mais humano. Seus livros nos reviram por dentro e por fora, nos rasgam as vísceras, sem pudor, sem concessões. Ela nos abre o peito, puxa pra fora o coração e dá umas apertadas, só pra garantir que estamos vivos. Seus livros são para crianças, assim como são para jovens ou adultos, mulheres, homens, idosos. Suas histórias tocam aquilo que esquecemos que sentimos, tiram a teia de aranha e nos deixam no ponto da catarse. Não há como não nos emocionarmos com seus livros, não há como sairmos ilesos. Lygia é a aspereza que vai polir nossa alma e nos ensinar a não passarmos incólumes pela vida.

Recomendo:
BOJUNGA, Lygia. 6 vezes Lucas. Rio de Janeiro: Casa Lygia Bojunga, 2009.

fonte da foto: http://www.casalygiabojunga.com.br/imprensa/
 

Ana Klauck – Professora da área de Letras / Doutoranda em Letras PUCRS
anaklauck@gmail.com / anaklauck@hotmail.com
Porto Alegre-RS

Revisado por Ana Munari
Doutora em Letras PUCRS
anamunari@terra.com.br


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