Livros à mancheia
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por Ana Munari -
Ótimas leituras de verão. No último mês, eu poderia falar de muitos livros infantis e juvenis, que eu li às dezenas, com muito gosto, para o trabalho e para a diversão. Eu não devo invadir o território da nova colunista, Ana Paula Klauck, responsável pela grande literatura dos pequenos aqui no Vitrine, mas vou comentar brevemente um livro e dois autores, porque não consigo ficar quieta quando algo me agrada. Depois são coisas de memória de infância…
É o caso de um livro juvenil que me surpreendeu: Cibermistérios e outros horrores, da Laura Bergallo. Dei ao meu filho para ele ler durante a viagem à Santa Catarina, para o réveillon, já sabendo que o tempo não seria de praia. Comecei a cumprir o trato de ler para ele um conto por noite, são sete histórias, sem muito entusiasmo, mas o livro mostrou ser interessante desde o primeiro conto, “Uma pose para a posteridade”, em que Luana, a narradora-personagem, conta o que acontece com um primo seu depois que uma sombra misteriosa aparece ao lado dele nas fotografias. Nada mais pode ser dito, para não diminuir os arrepios da leitura, que também é divertida nos outros seis episódios. A epígrafe é do Arthur Clarke, escritor britânico de ficção científica (lembram de 2001, um odisseia no espaço?): “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia”. Todas as histórias tratam de fatos estranhos que têm relação com aparatos tecnológicos – computador, fax, câmera digital – ou com o ambiente virtual – twiter, facebook. Como eu ainda não entendi o funcionamento da geladeira, gostei dessa ideia de pensar em gadgets como aparelhos mágicos (mas que a minha filha estudante de física não saiba)…
Enfim, posso recomendar sem temor o livro de horrores para os pequenos e os nem tanto leitores que gostam de histórias de suspense, ficção científica e ainda se interessam por tecnologia. Outras obras altamente recomendáveis são aquelas escritas pelo Marcelo Carneiro da Cunha, um autor que se tornou realmente especialista em conversar com o leitor jovem. É dele a série Duda, de histórias policiais, e ainda os romances Antes que o mundo acabe, que foi adaptado para o cinema por Ana Luíza Azevedo, e ainda Insônia, Nem pensar, Ímpar, entre outros. O primeiro livro que ele publicou foi A praia da ferrugem, também o primeiro que eu li, ainda no tempo que eu precisava recomendar boas leituras aos meus alunos da escola Marquês.
Outro autor que aprendeu a falar juvenês é o Caio Riter. Dele eu li há pouco Viagem ao redor de Felipe e Um na estrada. Em ambos, o protagonista é um garoto com conflitos em relação à família, ao crescimento e à formação de sua personalidade, temas que o Caio desenvolveu bem, com simplicidade e verossimilhança. Do Um na estrada eu pensei algumas coisas sobre as possibilidades de o texto se transformar em hiperlivro, já imaginando um mapa da viagem do Davi, os lugares que ele visita na Argentina, o blog dele acontecendo de verdade junto com a história, os torpedos trocados com o Glauco entrando durante a leitura… A viagem do Felipe, como o título diz, é outra, e acontece dentro dele mesmo. O final é muito bom, e a mim surpreendeu positivamente, já que o outro caminho que a história poderia ter tomado parecia mais óbvio para a literatura juvenil que anda por aí, que frequentemente apresenta aquele ranço moralista. Ou seja: embora hoje os personagens não precisem ser exemplos de bons filhos e fazer tudo certinho para serem os heróis, ainda assim muita gente (pais, professores) espera alguma lição ao final. No caso do livro do Caio, o que conta são as possibilidades da vida real, e o Felipe age como se espera aja um menino de sua idade – um guri legal, diga-se.
Eu sei, quem tem de dizer da apreciação da leitura juvenil é o seu leitor. Eu certamente não sou a leitora invisível dos livros do Marcelo e do Caio, aquela que está nas entrelinhas, pelo contrário, eu sou uma leitora gritante, de olhos arregalados, que salta para fora do texto e aponta o dedo. Mas existe uma qualidade literária que apaga a assimetria entre o narrador e seu interlocutor e que talvez diga respeito à própria literariedade e à possibilidade de o livro seguir conquistando leitores sempre, que é isso de nos chamar para dentro do texto, transformando-nos numa parte dele, fazendo-nos vivenciar tudo aquilo que se lê, com todos os sentidos.
Assim, lendo Ímpar ou Viagem ao redor de Felipe, cujo enredo, temática e personagens me são distantes, a história consegue me chamar para dentro dela, porque é verossímil, bem contada, interessante. Literatura boa é isso. E quem sabe escrever… Eu sou uma entusiasta dos autores gaúchos! Eu comecei a enumerá-los aqui, mas tive de apagar, não só porque são muitos, mas porque eu com toda a certeza esqueceria de uns tantos, mesmo entre os bons. Mas eu acho que tenho o direito de citar aqueles que me fizeram feliz, seja marcadamente para sempre, seja nos últimos tempos: Erico Verissimo, Josué Guimaraes, Moacyr Scliar, Luiz Antônio de Assis Brasil, João Gilberto Noll, Sergio Caparelli, Sergio Faraco, Diego Grando, Altair Martins. Puxa, e as escritoras? Lara de Lemos, Cláudia Tajes, Carol Bensimon e a minha preferida de todas no mundo todo: Lygia Bojunga.
A Lygia, que em 2012 completará 80 anos, e eu beijaria seus pés. Há dois anos eu a ouvi lendo um trecho de A casa da madrinha em uma livraria no Rio. Eu estava em um restaurante, peguei displicentemente um folder no balcão e ele era a propaganda de um evento literário que estava ocorrendo em Santa Teresa, onde Lygia reside e onde ela estaria conversando com os leitores. Saí correndo dali em direção ao bonde, que ficava perto, e cheguei na pequena livraria esbaforida. Entrei na sala, havia poucas cadeiras e algumas pessoas estavam em pé, ao redor das crianças, sentadas ao chão. Não tive dúvidas, fui pedindo licença, cheguei mais à frente, no canto para não atrapalhar os pequenos, e me sentei no chão. Fiquei ali ouvindo ela ler e contar, emocionada. Quando que eu imaginaria que veria isso um dia? As boas histórias que a gente lê na infância, essas que puxam a gente para dentro e mexem e transformam, ficam para sempre.
Outras, nem tanto por serem maravilhosas ou por bagunçarem nosso coreto, acabam ficando na memória pelas circunstâncias. É o caso de um livrinho que eu consegui encontrar num sebo pela internet dia desses, e que me chegou pelo correio antes do Natal: A garota rebelde. Eu procurei o danadinho por 33 anos. Só que eu buscava pelo título errado, em vez de garota, menina. Agora encontrei, e pude reviver a história para escrever meu memorial (que é a minha história de leitura). Assim: quando eu tinha sete anos, minha professora da segunda série, a Vera Borin, me deu esse livro para ler, nem sei bem por quê, mas ela simplesmente me pediu que eu lesse e depois quis que eu lhe contasse a história. Era meu primeiro livro “grande”, ou meu primeiro livro diferente daqueles cheios de figuras e com letras grandes e pouco texto. Era quase um livro para adultos. Li em três dias, e nunca mais esqueci da história da Ilse. Depois dele vieram Papai pernilongo, Heidi e Pollyana, que eu também comprei no sebo (a 2,00 cada).
Depois desses vieram muitos outros, justamente porque uma história puxa a outra, e eu acabei aqui, contando histórias sobre as histórias que eu leio e, espero eu, possa ler para sempre, seja em papel, seja na tela, seja no troço que inventarem para eu continuar lendo essas mesmas maravilhosas histórias.
Ana Munari
Doutora em Letras PUCRS
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