A leitura infantil e a mediação adulta
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por Ana Klauck -
Não há dúvidas de que a leitura e, mais do que isso, o contato com as artes, sejam elas escritas, musicais, visuais, fazem parte dos aspectos formadores da personalidade e da sensibilidade humana. É unanimidade entre pais e professores que tal contato deve ser estimulado nos pequenos na escola ou em casa. Mas a dúvida permanece sobre o que, de fato, oferecer às crianças, e o maior medo dos adultos é sempre em relação à mácula na inocência infantil, à libação da infância, à corrupção da pureza dos pequenos. A obrigação adulta em prevenir seus filhos é, muitas vezes, o grande guia para as decisões de pais e professores no que diz respeito a praticamente tudo aquilo que é oferecido à criança.
Essa precaução parental se reflete em escolhas culturais muitas vezes mancas e incipientes, calcadas em propósitos que muito se distanciam da fruição estética que a arte pode proporcionar e que, no entanto, mostram-se muito bem sucedidas entre os adultos. Sob a sombra dessas preocupações, surgem contos de fadas cujos finais trágicos são suprimidos, desenhos infantis clássicos que são renunciados por serem considerados inapropriados, canções folclóricas cujas letras são censuradas, narrativas simplistas, tímidas e bem comportadas. E todas essas produções se destacam pela falta de ousadia, pela ingenuidade e pela pobreza do viés artístico. Ainda há, no entanto, muitas obras infantis ousadas, criativas e interessantes que, em certos casos, ao propor a liberdade da língua e do pensamento, acabam sendo mal compreendidas justamente pelos adultos, que temem as repercussões nas mentes infantis.
O medo adulto em relação aos conteúdos que podem corromper a criança, em muitos casos, supera a preocupação com a mediação da leitura, essencial para a formação do leitor mirim. Um dos reflexos do despreparo em relação às leituras oferecidas aos pequenos leitores pode ser exemplificado com o que aconteceu em 2011 com o livro Heroísmo de Quixote, da escritora, ilustradora, artista plástica Paula Mastroberti. O livro, que contém elementos da fala cotidiana, inclusive palavrões, e cujo público-alvo são os jovens, foi proibido em bibliotecas escolares do Rio de Janeiro e recolhido após um caso envolvendo uma mãe perplexa e escandalosa, que se chocou ao encontrar a publicação nas mãos de seu filho. Pouco se discutiu sobre o caso, sobre a questão da mediação da leitura ou sobre a obra em si, que não era indicada para a faixa etária do menino. A discussão, enfim, abrangeu o escândalo da sociedade ante obra tão inapropriada e mal exemplar para as crianças e jovens, além da fala desculposa de uma professora frustrada, que confessou ter recomendado o texto sem o ter lido. Ainda, assim, teria sido salutar a discussão sobre a questão da apropriação da obra à idade do leitor, pois me pareceu que muito se reduziria tal polêmica. A obra de Mastroberti, nesse caso, acabou caindo em mãos despreparadas, tanto do leitor-criança, que talvez ainda não estivesse pronto para ter contato desacompanhado com o livro, quanto da mãe e da professora, que falharam em perceber que a inadequação era etária e não moral.
Nessa trapalhada cultural, crianças e jovens tornaram-se as vítimas, não por terem tido contato com o livro e seu, na opinião dos censores, ‘conteúdo imoral’, mas, justamente por terem sido privados do debate sobre o assunto e, afinal, da leitura da obra em si, que foi recolhida triunfalmente das escolas (num ato de proteção à moral e aos bons costumes?). Vários aspectos que poderiam ter sido alvo de debate, como a falta de preparo da professora e da mãe, o maniqueísmo incitado pela proibição do livro ou, ainda, a falta de uma mediação de leitura apropriada foram ignorados em privilégio de um movimento para proteção de um ser humano sem voz e sem opinião, considerado vítima de adultos subversores. Pergunto-me se, no meio dessa inquisição em praça pública, alguém tenha se dado o trabalho de ler a obra, de perguntar aos leitores juvenis sua opinião, de refletir sobre a complexidade da história e dos significados que subjazem o aclamado ‘texto proibido’.
Nessa perspectiva, em vez do controle extremo em relação à leitura oferecida aos mais novos, a mediação parece-me mais apropriada, na medida em que ela é capaz de ajudar o leitor em formação na sua incursão pela descoberta de ler. E esse caso evidenciou, a meu ver, que, para as crianças, a ideia da mediação está mais clara do que para muitos adultos. A notícia contava que a mãe foi procurada pelo filho que, com o livro nas mãos, tinha perguntas. Sim, perguntas! E a mãe, quando examinou o material, não teve dúvidas! Foi tirar satisfações com a escola, a responsável pela oferta daquele conteúdo impróprio. Imagino que as perguntas da criança continuaram, e ainda devem continuar, sem resposta. A mãe, a professora, a escola, a opinião pública, em seu debate despreparado, perderam a oportunidade de discutir a formação do leitor, a adequação da leitura e, mais do que isso, a importância do adulto na mediação e na formalização do ato de ler, ajudando e guiando crianças e jovens na descoberta e na valorização dos conteúdos que leem.
O texto de Mastroberti é belo, riquíssimo em significados e trabalha questões diversas, sobre as quais o leitor pode pensar e refletir.O texto deve ser lido, simplesmente porque boa literatura deve ser lida. Nem todos os leitores, porém, poderão fazê-lo sozinhos, o que talvez tenha sido o caso do menino carioca, e precisarão do apoio de outro leitor mais experiente. As leituras das crianças e dos jovens formam sua opinião e seus gostos, levam a pensar e a escolher o que querem continuar lendo ou não, e a mediação adulta os auxilia a entender e a reverberar os sentidos daquilo que leram. Oferecer leituras aos pequenos é dar-lhes opções e contribuir para sua autonomia, inclusive em relação ao próprio ato de ler. Quando um adulto decide ser César, condenado ou não livros com seu polegar impositor, ele está privando o leitor de sua formação, de sua capacidade de decidir e de delinear seu ser. Se, ao invés disso, o adulto aceitar seu papel de mediador, de facilitador, e não se posicionar como um censor de dedo em riste, a interação entre essas duas faixas etárias torna-se essencial para a formação do gosto e da apreciação da leitura.
O adulto deve saber que seu papel é estar ao lado para acompanhar e esclarecer e não para decidir o caminho intelectual e criativo dos menores. A leitura lapida o leitor, que, por sua vez, lapida seu gosto e sua leitura, em um movimento circular de construção de si mesmo. Leitura é prática. Gosto é uma colagem infinita, que sempre aceita novas composições e que vai mudando com tudo o que acrescentamos a ela. A leitura é um exercício eterno, que nunca se esgota, e que dá à criança condicionamento intelectual e emocional e a torna resistente, sensível e criativa. Um leitor está treinando a si mesmo quando lê. Está se preparando para leituras futuras, à medida que reverbera as leituras passadas. A criança, como um livro sendo escrito, também está se formando como leitora, em um movimento que vai acompanhá-la para sempre, mesmo quando crescer. Escolher o que ler é um direito da criança e acompanhar essas escolhas, segurar a mão, esclarecer é um dever adulto, muito mais do que proibir ou renunciar.
Ler é descoberta e, com frequência, os pequenos leitores encontram-se diante de desafios à sua imaginação e de estímulos à sua criatividade. Crianças e jovens aceitam o desafio e sentem prazer em questionar o livro, à medida que o vão conhecendo. Muitos adultos ainda estão em desvantagem nesse quesito, pois insistem em questionar sem conhecer, em privar em vez de mediar, em calar para não responder. Mas a arte segue abrindo caminhos e arrombando portas, sem se importar com as teias de aranha que encontra nas paredes. Ainda assim, vale a pena que ela entre, que levante a poeira dos móveis, que perturbe o sono dos justos, que faça tremer o dedo em riste, que destorça os narizes… para alegria das mentes famintas e inquietas.
Ana Klauck – Professora da área de Letras / Doutoranda em Letras PUCRS
anaklauck@gmail.com / anaklauck@hotmail.com
Porto Alegre-RS
Revisado por Ana Munari
Doutora em Letras PUCRS
anamunari@terra.com.br
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