A inutilidade da literatura infantil

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Ana Klauckpor Ana Klauck -

Tinham dito:
- Coisa boa que é a vida!
Ele ainda era bem pequeno, não sabia direito como é que se vivia, andava louco pra saber melhor; pensou um bocado, acabou perguntando:
- Como é que a gente entra na vida, hein? Tem porta pra bater? E batendo… eles abrem?
Responderam rindo:
- A vida não tem porta não. A gente nasce no céu e depois as cegonhas trazem a gente pra terra.
Ele nunca tinha visto uma cegonha, mas mesmo assim achou a história mal contada e acabou dizendo que não acreditava. Então deram outra explicação:
- É o papai noel que traz a gente pra vida.
Ele baixou os olhos: sabia muito bem que papai noel era invenção. Foi então que falaram:
- Tem porta pra entrar sim. Fica lá longe. – Apontaram.
Ele olhou desconfiado pra lá.
- Se você for bonzinho, você bate na porta da vida e eles abrem. Se você não for bonzinho eles não abrem.
Ele continuava olhando pra longe. Olhando e pensando: “Puxa vida, estão me enganado de novo”.
(NUNES, Lygia Bojunga. Angélica. Rio de Janeiro: Agir,1988).

A literatura infantil é um gênero recente e surgiu à medida que a criança foi ganhando espaço e importância na nossa sociedade. A literatura infantil brasileira ganhou destaque a partir do momento em que Monteiro Lobato decidiu que criança tinha e merecia ter voz. Os textos de Lobato são especiais porque são permeados por brincadeiras com as palavras e com as situações do cotidiano, uma configuração muito diferente do tipo de literatura oferecida aos pequenos pelos autores que o antecederam. Até meados do século XX, praticamente toda a literatura oferecida para a faixa etária infantil era calcada em elementos pedagógicos e doutrinários, cujo objetivo era civilizar a criança através de lições e preleções adultas.

Desde Monteiro Lobato, a literatura infantil brasileira passou por muitas fases e foi se consolidando com muitos nomes de talento que surgiram ao longo dos anos. Lygia Bojunga, Marina Colasanti, Sergio Capparelli, Ana Maria Machado, Fernanda Lopes de Almeida são alguns exemplos de grandes autores brasileiros para crianças.

Em contrapartida a essa ascensão da arte para crianças, mais especificamente, da literatura, ainda observo um grande vão entre aquilo que grandes autores oferecem aos pequenos e a ideia que muitos pais e professores têm sobre aquilo que deve ser oferecido ao leitor mirim. A literatura infantil traçou um caminho bem sucedido no século que passou e continua crescendo em qualidade e preocupando-se cada vez mais com o leitor. A cada ano, surgem livros cada vez mais ricos em imagens e em textos, criados com a intenção de conversar com a criança, entendê-la, adentrar seu mundo. São narrativas e poemas que caminham em direção ao pequeno leitor, demonstrando que conhecem o mundo da infância, e cujo objetivo é envolver os pequenos, falar com eles e não a eles. São histórias e versos que propõem o jogo de sons, palavras e sentidos e que não tentam lecionar sobre as tarefas mirins diárias, não ensinam sobre como lidar com problemas, não estimulam a fazer o tema de casa, a não dizer palavrão nem a lidar com situações de bullying. Não ensinam. Ou ensinam?

A despeito da imensa gama de títulos de grande qualidade artística disponível em nossas prateleiras, percebo ao meu redor um movimento constante dos pais em desprezar a literatura ficcional em privilégio de livros pedagógicos. Trata-se de uma preferência por livros focados, em teoria, nas necessidades das crianças (ou dos pais?) e que, por isso, apresentam em linguagem acessível (a quem?) lições para lidar com as vicissitudes naturais da faixa etária. Assim, é possível desde estudar o ABC ou palavras em outro idioma, até aprender a lidar com o irmãozinho com síndrome de down. São obras que, desde cedo, ensinam as crianças a objetividade da vida e a função básica e prática dos livros: ensinar. Mas será que seria somente isso que os livros têm a oferecer?

A literatura para crianças, assim como outros tipos de produção cultural para essa faixa etária, está nas mãos do adulto, seja em termos de produção, distribuição ou oferta. A autonomia dos pequenos em relação à arte com que têm contato é muita limitada e reflete a forma como os adultos a seu redor interpretam a realidade e, mais do que isso, a infância. Atualmente, tenho observado dois movimentos semelhantes no que diz respeito à forma como o homem se insere no mundo. O primeiro é uma atitude funcional em relação a praticamente tudo ao seu redor. O senso de utilidade tem impregnado a relação do sujeito, que cada vez mais dá sentido ao seu mundo somente sob o viés da função, do ganho imediato. Percebo também uma construção intensa na cultura contemporânea em direção ao entretenimento e ao regozijo a jato, baseados na compreensão instantânea e na reverberação do momento. Dessa forma, muito da cultura que nos é oferecida baseia-se em concepções imediatistas e efêmeras que, assim como muitas vezes não reverberam a longo prazo, tampouco permanecem por muito tempo no meio em que são apresentadas.

No mesmo viés, a literatura infantil acaba sendo sugada pelo senso adulto de utilidade e de aproveitamento instantâneo e acaba privilegiando conceitos e ideias que são interessantes ao mundo ‘dos grandes’, mas que pouco têm a ver com os gostos dos pequenos. Essa atitude pedagogizante é característica do discurso dominante e acaba impregnando as decisões adultas em relação àquilo que é oferecido à criança em termos de arte.

É com essa realidade que os rankings de obras mais vendidos em diversas feiras do livros de Porto Alegre corroboram; a cada ano, a lista de livros pedagógicos para crianças vendidos na feira aumenta e supera a de livros ficcionais para a mesma faixa etária. Mais do que acreditar que a maioria dos adultos tenham em mente a educação das crianças através desses ‘livros funcionais’, cabe pensar que, talvez, para muitos pais, a diferenciação entre esses dois tipos de obra seja nula. Trata-se de uma falta de adequação dos próprios adultos em relação ao que acreditam ser um livro infantil. Dessa forma, percebo que, assim como a disponibilização de livros pedagógicos está cada vez maior e tenha como objetivo, além de vender, de fato, ensinar as crianças através de lições pedagógicas, não podemos esquecer que a falta de um mínimo de consciência adulta sobre que o que é a literatura infantil e como ela contribui para a infância seja um dos fatores contribuintes.

Por outro lado, às vezes imagino que, por mais obscuro que o conceito de arte e de literatura possa ser para a maioria da população (e motivos pra isso são diversos e sabemos que perpassam a educação de má qualidade e a falta de políticas públicas em prol da leitura), vale questionarmos o quanto a falta de letramento e de acesso à cultura escrita dos pais pode prejudicar a visão que os filhos possam ter do livro, principalmente no que diz respeito à questão de sua ‘função’ na vida do homem.

Afinal, que função seria essa? Porque, então, na minha opinião, os livros literários infantis teriam algum benefício à criança em detrimento daqueles pedagógicos e com uma função bem definida? Bem, simplesmente pelo fato de que os livros literários, sejam infantis, sejam adultos, não têm função nenhuma. Eles não servem a nenhuma teoria, a nenhum conceito e não desejam ensinar nada. Os livros subvertem a realidade através das palavras e imagens e propõem apenas o pensamento, o envolvimento, o prazer ou a perturbação. A literatura infantil mostra à criança que, apesar de ela estar inserida em um mundo dominantemente adulto e no qual ela muitas vezes não tem voz ativa, as palavras e as imagens estão a seu lado e ela pode, sim, ser a figura dominante no mundo dos livros. A literatura dá à criança a possibilidade de viver situações que ela nunca talvez viverá, ou que não viveu ainda. Em poder das palavras, das imagens, da ficção, a criança mergulha em sua imaginação para, assim, aprender mais sobre o mundo, à medida que aprende sobre si mesma. Na ficção, não são necessários adultos, e a criança ensaia sua autossuficiência sem compromisso com a realidade, mas, obviamente, baseada nas vivências que possui. A reverberação causada pelos sentidos, no entanto, não é proposta direta do livro, tampouco é a função da leitura. Ela é uma consequência do estímulo do pensamento proposto pelo texto verbal e visual. Por não haver verdades, também não há mentiras dentro do mundo da literatura infantil. As histórias, os poemas, as imagens não pretendem dissertar, explicar, ensinar e, por isso, não enganam nem traem. As palavras adultas, assim como no trecho com que abri este texto, muitas vezes ludibriam os pequenos, que, à sua forma, sabem que estão sendo enganados. O livro infantil, por sua vez, não tem compromisso com o discurso e com a perspectiva adultos e, por isso se movimenta junto com a criança, e não a sua frente.

A literatura infantil abre-se no nosso mundo e, se for boa mesmo, não terá função nenhuma. O texto infantil de qualidade é inútil desde o primeiro momento em que foi pensado pelo autor. E, quanto mais inútil, mais rico. E quando mais inútil, mais nos ensina… E quando atinge o auge de sua inutilidade, toca a gente de forma indelével e nos lembra, a nós e as crianças, do prazer das coisas inúteis, das palavras aéreas, das imagens subversoras… do dedo no ar pensativo, da sobrancelha franzida, da boca entreaberta e ansiosa pelas palavras, do olho piscante e incrédulo diante da beleza da inutilidade…

Pois, afinal, de que serve a comida, se a gente não tem diversão e arte? E por que negar às crianças tão rico alimento?

 

Ana Klauck – Professora de Letras / Doutoranda em Letras PUCRS
anaklauck@gmail.com / anaklauck@hotmail.com
Porto Alegre-RS

Revisado por Ana Munari
Doutora em Letras PUCRS
anamunari@terra.com.br


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